TODO MUNDO ESCONDE UM SEGREDO

Há quem prefira esconder alguma característica física, como a calvície
Foto: Gustavo Arrais
Todos temos, em alguma medida, um segredo muito bem guardado.
Vale a pena revelá-lo ou é melhor mantê-lo para si?

Todo mundo tem algum tipo de segredo. Uma mania, uma fantasia, o desejo de vingança, um romance proibido, o passado nebuloso; são tantas as variantes que nem cabe listá-las aqui. Alguns contados, outros não. Tudo depende de o que eles nos causam e de como convivemos com eles.
É normal guardarmos para nós o que não queremos dividir com amigos, parentes, namorado, marido, filhos. "Não se compartilha tudo nas relações", afirma o psiquiatra Eduardo Ferreira-Santos, de São Paulo. Porque em uma relação a dois existe o Eu, o Tu e o Nós, e as pessoas têm de ter isso muito bem organizado intimamente e entender que o Eu é fundamental para a vida de cada um, já que nele estão nossos genuínos pensamentos, sentimentos, desejos, sonhos, manias, fantasias, devaneios e, claro, segredos.
Medo de verdade
"Um dos traços do segredo é a solidão e a sensação da manutenção de individualidade que ele carrega", afirma o psicanalista Rubens Marcelo Volich, de São Paulo. Assim, ao conservar algo para si, a pessoa também alimenta a ideia de que mantém sua individualidade distante dos olhares de julgamento que podem acompanhar quem ouve uma revelação. "Todos têm seu Dorian Gray guardado no sótão", afirma Ferreira- Santos, em uma alusão ao livro do escritor Oscar Wilde.
O Retrato de Dorian Gray conta a história de um belo jovem que parou de envelhecer depois de ser retratado por um pintor. Os atos escusos cometidos por Dorian vão transformando seu lindo rosto pintado na tela em um monstro repugnante, reproduzindo a feiura interior de Dorian - ou melhor, seu lado mais sombrio -, até o dia em que esse segredo é descoberto e ele destrói o quadro, morrendo em seguida.
Muitas vezes as pessoas escondem as coisas por medo de serem mal interpretadas ou julgadas - até aí, nenhum problema. "O ruim é quando essa história secreta pode atingir os outros de forma nociva", afirma Volich.
Traição: será que o outro topa pagar o preço de saber a verdade?
Foto: Gustavo Arrais
Confiança e catarse
Na mesma proporção que o medo, o preconceito muitas vezes impede as pessoas de serem transparentes. Por isso, acaba existindo um critério de seleção do confi- dente (mesmo que inconsciente), já que as pessoas buscam a cumplicidade de quem ouve.
"O segredo tem ao menos um depositário. Um diário de anotações, um amigo ou um profissional especializado, como o psicólogo, o psicanalista ou o psiquiatra", diz Christina Hajaj Gonzalez, coor- denadora do Ambulatório de Transtornos Obsessivos Compulsivos da Universidade Federal do Estado de São Paulo. A psiquiatra afirma que o risco de escolher um amigo para confiar algo secreto está no fato de ele não conseguir guardar aquilo para si. Não somente porque muitas pessoas não sabem ficar caladas, mas porque a confidência pode ser muito grave e quem a ouve pode não dar conta de guardá-la.
Na esfera pessoal dos segredos, a certeza de que ele não vazará ao ser confidenciado está garantida quando ele é contado ao terapeuta. "O que se conversa no consultório não sai dele. Quando o paciente demostra a intenção de matar ou agir contra alguém, ou quando ele sabe que um réu está sendo julgado injustamente, nesse caso vai do terapeuta o bom senso de avaliar a quebra de fatos secretos em benefício dos outros", diz Christina Gonzalez.
A figura do padre - ou do pastor e do mentor religioso ou espiritual - também está acima de qualquer suspeita. "Quando uma pessoa procura o sacerdote, ela quer mudar de pensamento, de vida. Ela quer se transformar", afirma o padre Beto Badiani, da Diocese de Santo Amaro, em São Paulo. Segundo ele, a confissão tem poder libertador. "Pode, sim, haver uma catarse quando se conta um segredo", afirma a paulistana Adriana Dorgan, especializada em psico-oncologia e psicologia clínica. Só de ter alguém nos ouvindo, a situação pode não parecer tão ruim ou, melhor ainda, quando nos ouvimos falar, percebemos que aquilo não é grave como imaginávamos. "Quando compartilha, às vezes acontece de a pessoa entender os motivos de uma fobia ou compulsão", explica Adriana.
Silêncio protetor
Também há momentos em que o segredo pode ser necessário. O executivo Roberto viveu uma situação difícil e teve de cortar um dobrado em benefício do silêncio. Manter um segredo sob certa aura de silêncio e confraria é comum na Polícia Civil. Quem me garante é o delegado T.F.A., de São Paulo. Ele explica que há um código de ética entre os policiais. "Quando participamos de uma ação, o que acontece fica entre todos os que estiveram nela. Se alguma coisa vazar, sabemos que foi dita por alguém do grupo. E, se for um vazamento de informação muito grave, o responsável por isso sabe que 'caguetas' não têm vez na Polícia."
E como voltar para casa leve quando se trabalha em um universo como esse? Segundo o delegado, ele aprendeu a ser dois-em-um. "Na delegacia sou sisudo. É o oposto do meu lado social, quando sou brincalhão. Aprendi com meu pai, que também era policial, que um segredo não se conta para ninguém. Uma vez dito, já não é mais secreto."
Respeito à individualidade
Preservar segredos nas relações a dois mantém a individualidade. "É importante isso estar presente no namoro, no casamento. Eu acho que há coisas que não devem ser ditas, como uma ficada em uma festa, um caso passageiro", diz a terapeuta familiar Flávia Stockler, de São Paulo. A psicanalista defende que se as coisas estão bem entre as pessoas não há necessidade de levantar poeira, bagunçar a vida. "Também não acho justo com o outro xeretar a pasta de trabalho, o celular, o e-mail. Isso é invasão de privacidade gerada pelo medo e pela insegurança. E uma relação sem confiança não é válida."
Roberta de Luca
Conteúdo do site Vida Simples, publicado em 25/08/2011

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